Meta description: Entenda a diferença entre o passe espiritual na Umbanda e o passe no Espiritismo Kardecista, seus fundamentos, práticas e significados.
Última atualização: 20 de junho de 2026
A primeira vez que recebi um passe foi numa gira de Umbanda, anos atrás, e lembro do calor nas mãos do guia descendo pelas minhas costas como se algo realmente estivesse sendo retirado de mim. Tempos depois, por curiosidade, fui a um centro espírita kardecista e recebi outro passe — silencioso, sereno, quase contemplativo. A sensação física foi parecida, mas o fundamento por trás de cada um é bem diferente. Se você já se perguntou qual a real diferença entre essas duas práticas, este artigo vai te mostrar.
Resumo rápido
- O passe na Umbanda é feito por médiuns incorporados com Entidades (Caboclos, Pretos-Velhos, Exus), com gestos firmes e ligação direta aos Orixás.
- O passe kardecista é feito pelo próprio médium em estado consciente, sem incorporação, transmitindo fluidos magnéticos vindos de espíritos superiores.
- Ambos buscam equilíbrio energético, mas partem de cosmovisões religiosas distintas — uma afro-brasileira, outra cristã-espírita.
O que é o passe e sua origem em cada tradição
O passe é, em ambas as religiões, uma transmissão de energia espiritual com finalidade de equilibrar, curar ou fortalecer quem o recebe. Mas a origem e o caminho até chegar à pessoa são bem diferentes.
Na Umbanda, o passe nasce da mediunidade incorporativa: o médium entra em transe e é a própria Entidade — um Caboclo, um Preto-Velho, uma Pomba-Gira — quem realiza o trabalho energético, usando as mãos do médium como instrumento físico.
Já no Espiritismo Kardecista, segundo a sistematização de Allan Kardec, o passe é entendido como transmissão de fluido magnético, vindo do próprio médium (que permanece consciente) e canalizado por espíritos superiores que auxiliam à distância, sem incorporação direta. [FONTE: Allan Kardec, “O Livro dos Médiuns”]
Fundamento: Na Umbanda, o passe é um ato de Entidade para pessoa, mediado pelo corpo do médium. No Kardecismo, é um ato de espírito para médium consciente, que então repassa essa energia ao consulente.
Significado espiritual de cada prática
Na minha vivência de terreiro, sempre me ensinaram que o passe umbandista carrega o axé direto da Entidade que está manifestada naquele momento — cada Caboclo trabalha com a força da natureza, cada Preto-Velho com a sabedoria e a humildade, cada Exu com o desfazimento de demandas e amarrações.
[FONTE: Reginaldo Prandi, “Encantaria Brasileira”] discute como a Umbanda incorpora a ideia africana de força vital (axé) presente em todo trabalho espiritual, incluindo o passe — não é apenas “energia genérica”, mas uma força ligada à natureza da Entidade que trabalha.
Já o passe kardecista tem fundamento mais filosófico-cristão: a ideia central é a caridade, o auxílio fraterno entre espíritos encarnados e desencarnados, sem hierarquia de “Entidades” com personalidade definida como no panteão afro-brasileiro. O foco está na elevação moral e no equilíbrio do perispírito (corpo espiritual sutil), conceito central da doutrina kardecista.
Como se pratica: passo a passo de cada passe
1. O passe na Umbanda
Preparação do terreiro
A gira começa com o ponto de abertura, defumação do ambiente e saudação aos Orixás regentes da casa. Só depois disso as Entidades começam a se manifestar nos médiuns.
Incorporação da Entidade
O médium entra em transe, e é nesse momento que a Entidade — geralmente Caboclo ou Preto-Velho para trabalhos de cura e equilíbrio — assume o corpo físico para realizar os atendimentos.
O atendimento
O consulente se aproxima, muitas vezes recebe um ponto cantado específico, e a Entidade realiza gestos firmes: passa as mãos pelo corpo, sopra, faz “limpeza” com as mãos puxando energia para fora, e em alguns casos usa charuto, cachimbo, pemba ou folhas como ferramentas complementares.
Ponto de Atenção: Nem todo terreiro realiza o passe da mesma forma — cada casa tem seu próprio fundamento, e isso deve ser respeitado, sem comparações de “certo ou errado” entre tradições.
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2. O passe kardecista
Ambiente e preparação
O centro espírita mantém ambiente silencioso, com música suave ou em total silêncio, sem incorporação, sem cantos, sem instrumentos.
Concentração do médium
O médium passista se concentra, em estado de vigília plena, pedindo mentalmente auxílio aos espíritos superiores ou benfeitores espirituais ligados ao centro.
O atendimento
As mãos são posicionadas sobre a cabeça e ombros do consulente, com movimentos suaves e contínuos, geralmente em silêncio absoluto, durando poucos minutos.
Elementos, dias e referências associadas a cada prática
| Elemento | Umbanda | Kardecismo |
|---|---|---|
| Estado do médium | Transe (incorporado) | Consciente |
| Quem realiza | Entidade (Caboclo, Preto-Velho, Exu) | O próprio médium |
| Ambiente sonoro | Pontos cantados, atabaque | Silêncio ou música suave |
| Ferramentas | Charuto, pemba, folhas, guias | Geralmente nenhuma |
| Dia mais comum | Dias de gira da casa (varia por terreiro) | Qualquer dia de reunião do centro |
Cuidados, respeitos e avisos espirituais
É importante entender que nenhuma das duas práticas substitui tratamento médico ou psicológico. Tanto Umbanda quanto Kardecismo tratam o passe como auxílio espiritual complementar, nunca como cura milagrosa isolada de outros cuidados necessários à saúde física e mental.
Dica Espiritual: Se você nunca recebeu um passe, vá com a mente aberta e sem comparar imediatamente as duas tradições — cada uma tem sua lógica interna, e julgar uma pelos padrões da outra costuma gerar mal-entendidos desnecessários.
Também vale reforçar: tratar Entidades de Umbanda como “personagens” ou o transe como teatro é um desrespeito profundo à fé de quem pratica. Da mesma forma, tratar o fluido magnético kardecista como algo “menos espiritual” por não envolver incorporação ignora toda uma doutrina séria e estruturada.
Perguntas Frequentes
P: Qual a diferença principal entre o passe umbandista e o kardecista? R: No passe umbandista, uma Entidade incorporada realiza o trabalho; no kardecista, o médium permanece consciente e canaliza fluidos magnéticos de espíritos superiores.
P: O passe dói ou causa desconforto? R: Não deveria causar dor. Pode haver sensação de calor, formigamento ou leve tontura, mas desconforto intenso não é esperado em nenhuma das duas práticas.
P: Posso receber passe nas duas religiões sem contradição de fé? R: Cada pessoa deve avaliar isso de acordo com sua própria caminhada espiritual; muitas pessoas frequentam apenas uma tradição por respeito ao fundamento de cada uma.
P: Quanto tempo dura um passe? R: Geralmente entre 1 e 5 minutos, podendo variar conforme a casa, a Entidade ou o médium responsável.
P: É preciso ser religioso para receber um passe? R: Não. Tanto terreiros de Umbanda quanto centros espíritas costumam atender qualquer pessoa que busque equilíbrio espiritual, independente de já fazer parte da religião.
Conclusão
O passe, seja na Umbanda ou no Kardecismo, carrega o mesmo desejo de ajudar o próximo a encontrar equilíbrio — mas o caminho até essa ajuda reflete cosmovisões religiosas profundamente diferentes. Conhecer essas diferenças não é sobre dizer qual é “melhor”, mas sobre respeitar a riqueza espiritual de cada tradição.
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Sobre o autor
Sou praticante de Umbanda há mais de quinze anos, iniciado em uma casa de tradição que preserva os fundamentos passados de geração em geração. Já frequentei também centros kardecistas por curiosidade espiritual, o que me deu uma visão respeitosa e comparativa entre as duas práticas. Escrevo aqui para compartilhar, com responsabilidade, um pouco do que aprendi nessas vivências.

