Quimbanda e Umbanda de Esquerda: o que muda, de verdade

Quimbanda e Umbanda de esquerda são a mesma coisa? Não exatamente. Na Umbanda, a chamada “linha de esquerda” é a parte da religião que trabalha principalmente com Exus e Pombagiras. A Quimbanda é o culto específico a esses mesmos espíritos, e dependendo da casa e do estudioso, ela é descrita como uma religião própria ou como um ritual dentro da Umbanda. Ou seja: os personagens se parecem, mas o contexto, a estrutura e a forma de culto mudam.

Essa dúvida é uma das mais comuns de quem está começando a estudar as religiões afro-brasileiras, e também uma das mais mal explicadas na internet. Eu fui atrás de pesquisa acadêmica e de entrevistas com estudiosos para escrever este texto com o máximo de cuidado possível. Vou te mostrar o que as fontes dizem, onde elas concordam e onde a coisa depende da casa e da região.

Resposta rápida: qual é a diferença entre Quimbanda e Umbanda de esquerda?

  • Umbanda de esquerda (linha de esquerda): parte da Umbanda em que se trabalha com Exus e Pombagiras, geralmente em giras próprias, dentro de um terreiro que também tem as outras linhas (caboclos, pretos velhos, crianças).
  • Quimbanda: culto dedicado especificamente a Exu e Pombagira. Para parte dos estudiosos é uma religião à parte; para outros, é um ritual da própria Umbanda.
  • O ponto em comum: em ambas, Exu e Pombagira são os espíritos centrais.
  • O ponto de partida da confusão: o nome “Quimbanda” já foi usado por umbandistas para falar de práticas que eles rejeitavam.

O que é a linha de esquerda na Umbanda

Quando alguém fala em “linha de esquerda” na Umbanda, está falando principalmente de Exus e Pombagiras. Um artigo publicado na revista Sacrilegens, da UFJF, descreve a linha de esquerda como aquela representada principalmente por Exu e Pombagira, e explica que existe uma corrente que entende a Quimbanda ou como religião própria, ou como um ritual dentro da própria Umbanda dedicado a essa linha.

Outro trabalho, apresentado em anais da revista Plura sobre a Umbanda em Viçosa, mostra como a expressão “linha de esquerda” foi historicamente associada ao mundo inferior e a espíritos considerados menos evoluídos dentro de uma escala espiritual. Eu faço questão de explicar isso porque é aí que nasce boa parte do preconceito: a própria organização da Umbanda, no início, criou uma hierarquia que colocou Exu e Pombagira num lugar de suspeita.

Fundamento: na Umbanda, “esquerda” não quer dizer “mal”. É o nome de uma linha de trabalho com Exus e Pombagiras, espíritos que lidam com o chão da vida: caminhos, proteção, relações e questões materiais.

Isso bate com a descrição que aparece em obras de referência sobre o tema: os Exus costumam ser associados a assuntos humanos e materiais, enquanto os espíritos da chamada “direita” são associados mais a questões espirituais.

O que é a Quimbanda

A Quimbanda é, em termos simples, o culto a Exus e Pombagiras. O estudo publicado pela UFJF diz que, na Quimbanda, existe um culto específico a esses espíritos, e destaca Pombagira como a contraparte feminina de Exu. O mesmo artigo explica que o nome Pombagira vem de Bongbogirá, um dos nomes de Exu no Candomblé Angola.

Na prática, o que muda é o foco. Num terreiro de Umbanda, a gira de esquerda é uma das giras do calendário. Numa casa de Quimbanda, Exu e Pombagira são o centro de tudo.

Um artigo da Revista de Antropologia da USP sobre a Quimbanda no Rio Grande do Sul vai além e mostra que o culto a Exus e Pombagiras ganhou um lugar de destaque entre as expressões afro-religiosas daquele estado, ao lado do Batuque e da Umbanda. Outro trabalho, publicado na revista Religare (UFPB), explica que, no Sul, a Quimbanda esteve ligada à chamada Linha Cruzada e, de subcategoria, passou a assumir protagonismo.

Ponto de Atenção: a palavra “Quimbanda” não significa a mesma coisa em todo lugar. Em algumas regiões ela aparece como ritual dentro de outra tradição; em outras, como religião com identidade própria. Quando alguém te disser “a Quimbanda é assim”, pergunte: em qual casa, em qual região, em qual linhagem?

De onde vem a confusão entre os dois termos

A confusão tem raiz histórica. Segundo o verbete sobre Quimbanda que resume a bibliografia acadêmica, durante muito tempo o termo foi usado por praticantes da Umbanda para descrever as práticas que eles rejeitavam. Um antropólogo citado na mesma fonte sugere que “quimbanda” começou como um rótulo pejorativo para elementos da Umbanda que foram deixados de lado. O estudioso Steven Engler, por sua vez, descreve as duas como muito próximas.

Esse histórico explica por que tanta gente ouve “Quimbanda” e pensa em algo “contrário” à Umbanda. Na verdade, a relação é de parentesco com tensão: as duas surgem do mesmo caldo religioso, mas a Umbanda buscou uma imagem socialmente mais aceita, e a Quimbanda ficou com aquilo que foi considerado incômodo.

Fundamento: o sociólogo Reginaldo Prandi, em entrevista à Vice Brasil, comenta que muita gente tem dificuldade para entender o que é a Quimbanda, o que é a Umbanda e como ambas se diferenciam do Candomblé. Ele também observa que há terreiros de Umbanda sem o lado da Quimbanda, e que em outros o culto a Exu e Pombagira existe, às vezes após um processo de “limpeza” dessas entidades.

Exu e Pombagira não são o diabo

Esse é o ponto em que eu mais gosto de ser direto. A imagem de Exu como demônio não nasce da tradição africana: ela é uma construção histórica. O trabalho da revista Plura mostra como a figura do orixá Exu foi ressignificada por analogia ao diabo cristão, e como essa imagem de “Exu-demônio” acabou sendo reproduzida inclusive dentro da Umbanda.

Já o estudo da UFJF lembra que Pombagira, mesmo sendo uma figura que desperta reações fortes, é uma entidade com muitas faces e nomes, como Maria Quitéria, Maria Molambo, Pombagira Cigana e Pombagira das Praias. Esses nomes mostram a diversidade de histórias, arquétipos e funções que a tradição reconhece.

Dica Espiritual: se você ainda tem medo de Exu e Pombagira por causa do que ouviu desde criança, comece estudando antes de visitar qualquer casa. Entender o contexto histórico tira muito do peso do preconceito e te ajuda a observar uma gira com respeito, não com susto.

Tabela comparativa: Umbanda de esquerda x Quimbanda

PontoUmbanda de esquerdaQuimbanda
Onde aconteceDentro de um terreiro de Umbanda, em giras específicasEm casas dedicadas ao culto de Exu e Pombagira (ou como ritual específico, conforme a linhagem)
Espíritos centraisExus e PombagirasExus e Pombagiras
Outras linhas na casaSim: caboclos, pretos velhos, crianças e outrasEm geral o foco é Exu e Pombagira
Como a academia descreveLinha de trabalho da UmbandaReligião própria ou ritual dentro da Umbanda, conforme a corrente
Origem do termo“Esquerda” como classificação dentro da UmbandaTermo que já foi usado por umbandistas para práticas rejeitadas
Variação regionalMuda de casa para casaNo Sul, ligada à Linha Cruzada e com protagonismo crescente

Como eu recomendo que você procure uma casa

Eu não posso te dizer qual casa é boa ou ruim, e desconfio de quem diz. O que eu posso recomendar é um caminho de observação:

  1. Pergunte qual é a linha da casa. Casas sérias respondem sem enrolação.
  2. Assista antes de participar. Gira de esquerda e gira de Quimbanda podem ter dinâmicas diferentes entre si.
  3. Desconfie de promessa de resultado garantido. Religião não é prestação de serviço com garantia.
  4. Respeite as regras da casa. Roupa, comportamento, horário e etiqueta mudam de terreiro para terreiro.

Perguntas frequentes

Quimbanda é a mesma coisa que Umbanda de esquerda?

Não exatamente. A linha de esquerda é uma parte da Umbanda que trabalha com Exus e Pombagiras. A Quimbanda é o culto específico a esses espíritos e, segundo a corrente acadêmica, pode ser vista como religião própria ou como ritual dentro da Umbanda.

Todo terreiro de Umbanda tem gira de esquerda?

Não. Prandi observa que existem terreiros de Umbanda sem o lado da Quimbanda. Em outros, o culto a Exu e Pombagira existe, e em alguns houve um processo de “limpeza” dessas entidades.

Quimbanda é religião do mal?

Não. A associação de Exu com o diabo é uma construção histórica, estudada por pesquisadores, e não faz parte da origem do orixá. Quimbanda é o culto a Exus e Pombagiras, espíritos que a tradição relaciona a caminhos, proteção e vida material.

De onde vem o nome Pombagira?

Segundo estudo da UFJF, Pombagira é a forma feminina de Exu, e o nome vem de Bongbogirá, um dos nomes de Exu no Candomblé Angola.

Qual a diferença entre Quimbanda e Candomblé?

São tradições distintas, com histórias, estruturas e fundamentos próprios. O Candomblé cultua orixás, voduns e inquices; a Quimbanda cultua Exus e Pombagiras como espíritos. Por isso é importante não misturar os termos.


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Fontes consultadas

  • Sacrilegens (UFJF). Artigo sobre Pombagira na Umbanda e na Quimbanda. https://periodicos.ufjf.br/index.php/sacrilegens/article/download/45706/28642/208851
  • Revista Plura, anais. “As múltiplas faces de Exu na Umbanda”. https://revistaplura.emnuvens.com.br/anais/article/view/1274/1096
  • Revista Religare (UFPB). “A emergência da Quimbanda nos cultos afro-gaúchos”. https://periodicos.ufpb.br/index.php/religare/article/download/59639/35107/177050
  • Revista de Antropologia (USP). “O enigma da Quimbanda: formas de existência e exposição de uma modalidade religiosa afro-brasileira no Rio Grande do Sul”. https://revistas.usp.br/ra/article/view/186652
  • Vice Brasil. Entrevista com Reginaldo Prandi. https://www.vice.com/pt/article/reginaldo-prandi-v1n6/
  • Wikipedia. Verbete “Quimbanda” (resumo da bibliografia, com referências a Engler e Hayes, entre outros). https://en.wikipedia.org/wiki/Quimbanda