As cores mais associadas a Exu e Pombagira são o vermelho e o preto. É a combinação que aparece em quase toda descrição popular dessas entidades: a Pombagira costuma ser retratada com vestido vermelho e preto, e o Exu tem as mesmas cores como referência. Mas a história por trás dessas cores é mais rica do que “vermelho é paixão e preto é mistério”. Uma pesquisa acadêmica sobre as imagens sagradas de Exus e Pombagiras na Umbanda mostra que o branco também entra na conta, que o dourado aparece como ornamento e que cada cor tem raízes no orixá Exu (Èṣù), de origem africana.
Eu fui atrás de fontes acadêmicas e de divulgação para escrever este texto com cuidado. Vou te mostrar o que dizem os estudos, o que dizem os sites populares e onde a coisa varia conforme a casa e a linhagem.
Resposta rápida: quais são as cores de Exu e Pombagira?
- Vermelho e preto: as cores predominantes e mais conhecidas de Exu e Pombagira.
- Branco: aparece como terceira cor na indumentária das entidades da esquerda, segundo pesquisa sobre as esculturas de Umbanda.
- Dourado: introduzido como ornamentação nas roupas, de acordo com a mesma pesquisa.
- Variação: cada Exu e cada Pombagira tem suas particularidades, e a casa e a linhagem definem o que é usado.
As cores segundo a pesquisa acadêmica
Uma dissertação de mestrado da UERJ sobre a imaginária sagrada de Exus e Pombajiras na Umbanda observa que, apesar da enorme diversidade de entidades (centenas, entre Exu Caveira, Exu Tranca-Ruas, Maria Padilha, Maria Mulambo e muitas outras), elas compartilham um traço: as cores. O autor, a partir de conversas com fabricantes de imagens, registra que a indumentária dessas entidades tem sempre três opções de cor, vermelho, preto e branco, com o dourado entrando como detalhe de ornamentação.
Ou seja: o vermelho e o preto são os mais famosos, mas o branco também faz parte do conjunto.
Fundamento: essas três cores não são decoração aleatória. A pesquisa liga as cores das entidades da Umbanda à herança do orixá Èṣù, que tem no branco, no vermelho e no preto seus significados plenos.
O que cada cor representa
A mesma dissertação cita a antropóloga Juana Elbein dos Santos para explicar o simbolismo das cores de Èṣù. Eu vou resumir com minhas palavras, porque o texto original é denso:
- Preto: está ligado ao aspecto de Èṣù associado à multiplicação e ao crescimento dos seres, e ao processo oculto, secreto e indecifrável que acontece dentro da matéria que gera a vida. Um dos aspectos de Èṣù citados pela autora é descrito como completamente preto.
- Branco: representa a existência em sentido geral, herdada dos genitores, a “matéria” sem a qual não haveria existência individualizada.
- Vermelho: simboliza o resultado de uma interação. A autora associa o vermelho ao fogo e à força de realização: o sangue que circula e dá vida, e também o poder de gestação.
O trecho também explica que Èṣù é descrito em mitos com vestimentas ou gorros de duas, três ou quatro cores (incluindo o amarelo), e que, dependendo do aspecto de Èṣù que se quer destacar, uma cor predomina.
Ponto de Atenção: repare que a leitura acadêmica é bem mais profunda do que a versão de internet. Em vez de “vermelho = amor e preto = mal”, a tradição fala de vida, geração, existência e mistério. Reduzir o preto a “coisa ruim” é um erro que alimenta o preconceito contra Exu e Pombagira.
Vermelho e preto na descrição popular
Fontes de divulgação reforçam o consenso sobre as cores principais. O site Significados descreve o vermelho e o preto como as cores predominantes da Pombagira. O portal Cultura Genial descreve a Pombagira como uma figura feminina de vestido vermelho e preto e informa que as cores do orixá Exu são também o vermelho e o preto, com a saudação “Laroyê”, que quer dizer “salve o mensageiro”.
Um trabalho apresentado em anais da Universidade Estadual de Goiás sobre as comunidades de terreiro no Distrito Federal observa que, embora prevaleçam o vermelho e o preto, os adeptos também adotam outras cores e acessórios. Isso confirma que não existe uma regra única para todo o país.
Cores diferentes para Exus diferentes
Em algumas tradições, o grupo de Exus é descrito por cores. Um artigo da revista Identidade, da Faculdade Est, sobre as representações de Exu na Umbanda Cruzada e na Quimbanda no Sul do país, traz relatos de praticantes que falam em “Povo Vermelho e Preto” e em “Povo de Cemitério”, este último associado ao preto. Esse tipo de classificação mostra que, em certas casas, a cor ajuda a identificar o tipo de Exu e o espaço onde ele atua.
Dica Espiritual: se você frequenta uma casa ou está pensando em procurar uma, pergunte com respeito como aquela casa trabalha com as cores. A resposta pode ser diferente da que você leu em qualquer site, inclusive neste.
Por que o vermelho e o preto viraram “a cara” de Exu e Pombagira
Aqui entra um ponto que eu considero importante. As imagens de Exus e Pombagiras na Umbanda foram criadas num contexto brasileiro, majoritariamente católico, em que a figura de Exu foi muitas vezes confundida com a do diabo cristão. A dissertação da UERJ mostra que Exu e Pombagira receberam elementos iconográficos da demonologia cristã, mas que essas imagens guardam heranças africanas, ibéricas e populares muito mais complexas.
Isso significa que as cores têm duas camadas: a africana, ligada a Èṣù, e a brasileira, formada pelo encontro de várias culturas. Dizer que “vermelho e preto é cor do diabo” ignora as duas.
Perguntas frequentes
Quais são as cores de Exu e Pombagira?
As cores mais conhecidas são o vermelho e o preto. Pesquisa acadêmica sobre esculturas de Umbanda registra também o branco e, como ornamento, o dourado.
O que significa o vermelho de Exu e Pombagira?
Na leitura de Juana Elbein dos Santos, citada em pesquisa da UERJ, o vermelho simboliza o resultado de uma interação e está ligado ao fogo, ao sangue que dá vida e ao poder de gestação.
O que significa o preto de Exu?
Está ligado ao processo oculto e secreto que acontece no interior da matéria que gera a vida, relacionado ao crescimento e à multiplicação dos seres. Não significa “maldade”.
Todo Exu e toda Pombagira usam as mesmas cores?
Não. Embora o vermelho e o preto sejam predominantes, as fontes mostram que há variações por entidade, por casa e por região.
Exu e Pombagira têm cores de diabo?
Não. A associação de Exu com o diabo é uma construção histórica estudada por pesquisadores. As cores têm raízes no simbolismo do orixá Èṣù.
Preciso usar vermelho e preto para ir a uma gira de esquerda?
Isso depende da casa. Pergunte antes ao dirigente do terreiro ou observe as orientações do local.

